Tecnologia de alimentos cria vinhos e uísques sintéticos

Empresa da Califórnia desenvolve bebidas alcoólicas muito diferentes usando nova tecnologia de alimentos.

20/11/2018 às 17:00

Tudo está acontecendo em um armazém reformado em São Francisco, na Califórnia. A empresa se chamava Ava Winery, mas mudou o nome para Endless West. Entretanto, a meta continua a mesma: produzir vinhos e uísques com uma nova tecnologia de alimentos. Em suma: vinhos sem uvas e fermentação, uísques sem cereais e barris para maturação. Portanto, bebidas alcoólicas completamente sintéticas.

A Endless West é uma startup que recentemente fez nova rodada para angariar fundos. E conseguiu vários investidores. A empresa consiste de um laboratório pequeno, de menos de 170 metros quadrados, com nada que lembre vinícolas ou destilarias de uísque. Aliás, é um ambiente quieto, onde químicos auxiliados por computadores lidam com provetas, cromatógrafos, espectrômetros de massa e algo muito inusitado: um robô de manipulação de líquidos. Ele é carregado com tubos de ensaio cheios de vinhos e uísques feitos do modo convencional.

 

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Empresa americana trabalha em uísque e vinhos sintéticos.

Um robô faz o trabalho

Em princípio, a tarefa do robô é complexa: medir e mapear os perfis moleculares de bebidas alcoólicas comuns. Possui até um “nariz artificial”, com o qual mede as propriedades olfatórias de cada bebida. Certamente, esse não é um equipamento que se vê em destilarias ou vinícolas.

O desafio do robô e da própria Endless West: decifrar quais aminoácidos, carboidratos, açúcares, proteínas e lipídeos montam o perfil orgânico de várias bebidas alcoólicas. Enquanto trabalha, o robô identifica moléculas essenciais na composição dos aromas e sabores, como os cítricos e os amanteigados.

Então, uma vez identificados os aromas e sabores, o robô coleta seus equivalentes químicos. São produtos de nomes complexos como etil isobutirato, etil hexanoato ou diacetil. E a eles adiciona um álcool neutro destilado da fermentação de grãos. Em resumo, esse álcool é um etanol bem refinado. E assim a Endless West vai formulando versões sintéticas de vinhos e uísques. Tecnologia de alimentos de vanguarda, certamente.

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Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Para atrair investidores, empresa faz testes com vinhos sintéticos.

Produção ambientalmente sustentável

Entretanto, isso não é usar a tecnologia de alimentos em algo com pouca utilidade? Arvind Gupta, da empresa IndieBio, uma das investidoras no projeto, diz que não. Ele explica que as técnicas de produção da Endless West usam muito menos água e muito menos terra. O que certamente faz todo o sentido. A ideia é de que, com o tempo, a Endless West iguale ou ultrapasse a indústria tradicional de vinhos e destilados, com um método de produção ambientalmente sustentável e com menores custos.

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Endless West quer se igualar ou ultrapassar a indústria tradicional de vinhos e destilados, com método de produção ambientalmente sustentável.

A startup quer ser boa para o meio ambiente pela inovação e tecnologia. E transformar a tecnologia em ferramenta para artesanato de qualidade – que é a construção de uma bebida sintética. Quer saber ainda mais sobre tecnologia de alimentos? Leia este artigo sobre aplicativos veganos.

Só em 2016 a Endless West levantou 2,7 milhões de dólares (R$ 10,8 milhões) em investimentos. Mas ainda não lançou nada no mercado. Já houve promessa de lançamento de 499 garrafas que seriam idênticas à Champagne Dom Pérignon de 1992. Mas o espumante até agora não surgiu.

Primeiro, um destilado marrom

Aliás, o primeiro produto a entrar no mercado deverá vir no final deste ano ou no início do próximo. E o que será? Um dos chamados “destilados marrons”: um rum ou um uísque do tipo bourbon (bebida norte-americana feita de milho, na versão original). Depois de mais um ano ou dois deverá ser lançado o primeiro vinho.

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Rum sintético poderá ser primeiro produto lançado pela Endless West.

Para atrair investidores a Endless West oferece para degustação um vinho moscato. E a bebida sintética tem realmente conquistado empresas ávidas para investir. Mas ainda não há uma fórmula de vinho pronta. Entretanto, o outro argumento usado junto a investidores em potencial também é forte: fazer bebidas sintéticas porque é necessário para o meio ambiente.

Eventualmente nem todos gostam da bebida. O jornalista Alan Goldfarb, do site The Verge, participou de uma degustação e não se impressionou. Ele experimentou vários moscatos e dois se mostraram particularmente diferentes. Um tinha “cheiro e gosto de cinzeiro”, conforme Goldfarb – e era um vinho engarrafado feito realmente de uvas. O outro vinho era da Endless West, que entretanto tinha “gosto artificial, de plástico, sem acidez adequada”. Segundo o jornalista, o vinho parecia falso.

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Já foram feitos testes de degustação em vinho moscato sintético.

Em síntese, disse Goldfarb, os vinhos sintéticos da Endless West precisam de mais tempo para desenvolvimento antes de chegarem ao mercado.

Mas o que é autenticidade?

A Endless West discorda do jornalista e diz que a autenticidade de um vinho não requer necessariamente uvas. Seus produtos sintéticos seriam tão autênticos quanto quaisquer outros no mercado. Por quê? Porque cada ação que uma vinícola faz tem uma ação correspondente no laboratório da Endless West. O aperfeiçoamento continua e um vinho somente será lançado quando estiver perfeito. No entanto, a empresa admite que seu vinho é diferente do que as pessoas estão acostumadas.

Aliás, o investidor Arvin Gupta vai além: “Se você acredita que vinho é um processo, com o terreno e a história de sua produção, então o projeto da Endless West pode parecer confuso. Mas se o vinho é apenas uma bebida deliciosa, feita para o prazer de beber, então o processo significa muito menos”.

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

Tecnologia de alimentos também para criar bebidas alcoólicas sintéticas

Tecnologia de alimentos em outras versões

Contudo, é preciso considerar que a Endless West é a única empresa usando tecnologia realmente inovadora na tentativa de produzir bebidas alcoólicas diferentes. Ela tem seis concorrentes apenas nos Estados Unidos, mas todas seguem caminhos bem mais conservadores, usando a tecnologia apenas para acelerar o processo de envelhecimento de destilados:

A Lost Spirits, de Los Angeles, desenvolve tecnologia para bombardear seus produtos com luz de alta intensidade e depois aquecê-los em um reator.

A Cleveland Whiskey fica em Ohio e utiliza um ambiente de alta pressão, com elevado nível de oxigênio, para acelerar a produção.

A Teressentia, localizada no Kentucky, usa uma técnica que envelhece bourbon em barris em apenas seis meses. Aliás, o processo usa energia ultrassônica.

Outra empresa da Califórnia acelera a maturação jogando lascas de madeira nos barris. E ainda existem as “espiritualizadas”: uma californiana e uma nova-iorquina jogam música nos barris na esperança de que isso acelere o processo.

Mas nenhuma delas chega perto da inovação em tecnologia de alimentos proposta pela Endless West. E você, o que acha? Experimentaria um uísque sintético?

Contra o desperdício de alimentos

Se a Endless West usa também como argumento a redução do uso de água e de terra na produção das bebidas sintéticas, é bom lembrar que a tecnologia também combate o desperdício de alimentos.

Veja o que é capaz a tecnologia de alimentos.

A tecnologia de alimentos também é usada na agricultura combinando robótica e Inteligência Artificial.

A The Small Robot Company, uma startup inglesa, combinou robótica e Inteligência Artificial para digitalizar campos de plantio e assim obter lavouras de alta precisão. O objetivo é oferecer ao fazendeiro informações detalhadas sobre sua terra, sempre com vistas ao lucro. O programa gera um mapa que mostra quais áreas usar, quais deixar descansar e quais os plantios recomendados. Ou seja: produção exata e sem desperdícios.

Além disso, na Suíça, foi desenvolvido um sensor que avalia o estado das frutas enquanto elas viajam do produtor ao consumidor. O sensor grava continuamente o estado de cada fruta e envia informações atualizadas sobre a temperatura no container. Então, durante o transporte, a temperatura vai sendo corrigida. Afinal, mesmo poucos minutos de graduação errada compromete as frutas. Isso não só evita desperdícios como modifica os hábitos de colheita e transporte.

É incríveis todos esses avanços proporcionados pela tecnologia! E que tal dar uma olhada no futuro da alimentação? Na cozinha do futuro, os robôs e gadgets são os protagonistas. Descubra mais aqui.

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