Minorias sociais: como WhatsApp e Facebook estimulam troca de experiências

Mulheres, negros, membros do movimento LGBT, deficientes auditivos e surdos encontram em espaços digitais, como em grupos no WhatsApp, o apoio e empatia que não existem nas ruas.

07/06/2018 às 17:00

Apesar de sugerir “uma pequena quantia”, o termo “minorias” está vinculado à grupos sociais tradicionalmente subordinados que possuem poucos direitos sociais. De forma pragmática, a palavra refere-se a mulheres, negros, membros do movimento LGBT, surdos, deficientes visuais ou que possuem algum tipo de deficiência física.

As minorias sociais são um número expressivo de pessoas que não possuem acesso básico à educação, saúde, segurança e geração de emprego, principais demandas do país.

A prova dessa afirmação são os seguintes dados: no Brasil, há mais mulheres do que homens; 54% da população se declara preta ou parda; 10% são LGBT (declarado) e mais de 9,7 milhões têm deficiência auditiva em algum nível.

Ainda sobre o termo, a pesquisadora Guacira Lopes Louro afirma que foi cunhado nos anos 1960, quando as chamadas “minorias sexuais e étnicas” começaram a questionar teorias e conceitos, construindo práticas sociais menos excludentes.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Dessa forma, existem muitos encontros físicos, alguns avanços jurídicos e alguns espaços para discussões. Inclusive, a tecnologia possui papel fundamental nesta evolução, principalmente tratando-se de redes sociais digitais. Os grupos no Facebook e grupos no WhatsApp, por exemplo, contribuem para unir e acolher minorias sociais.

Abaixo, você vai conferir um pouco sobre o onde as discussões acontecem e de que forma elas auxiliam as pessoas.

Grupos do Facebook em apoio às mulheres

Quando o assunto é apoio às mulheres, a ferramenta mais utilizada é o Facebook. Em específico, os grupos públicos, privados ou secretos que qualquer usuário pode criar. Aliás, os temas variam, mas compartilham um objetivo: facilitar o desafio de ser mulher na sociedade brasileira.

Isto é, entre os resultados divulgados pelo Facebook, você encontra grupos que discutem obras como “As Mulheres que Correm com Os Lobos”. Há também outros dedicados à couchsufing e também os que ajudam as mulheres a ganharem mais espaço no mercado de trabalho. Aliás, um deles é “Mulheres na TI” que, atualmente, reúne 1.162 usuários.

Tem também grupo para mulheres que desejam empreender e grupos de apoio que visam conscientizar mulheres que sofrem agressões físicas e verbais, à  não se calarem.

Print de grupos no Facebook que apoiam às mulheres

Os grupos públicos do Facebook possuem uma abordagem mais prática. Imagem: Mulheres Empreendedoras Brasil e Mulheres na TI.

Nem todos os grupos acima mencionados possuem moderação específica. No entanto, todos têm regras que devem ser seguidas pelos participantes. Caso contrário, a publicação é excluída ou a pessoa é banida do grupo. Além do mais, para fazer parte, por vezes é necessário passar por uma avaliação. Ou ser convidado por alguém que já é integrante.

Em suma, no caso das mulheres, os grupos públicos do Facebook não funcionam como espaços para discussões profundas sobre gênero. Eles possuem uma abordagem mais prática, digamos assim. No entanto, os que cumprem a “função teórica” são os grupos privados, que não cabe aqui mencionarmos os nomes.

Se você, como mulher, possui uma necessidade específica, faça uma pesquisa no Facebook e encontre o grupo ideal. Há várias outras mulheres dispostas a ajudá-la.

Grupos do WhatsApp para comunidade Surda

Para quem é surdo ou Deficiente Auditivo (DA), a principal ferramenta é o WhatsApp. Além de encontros e organização de eventos, o aplicativo de mensagens serve como espaço de apoio e troca de experiências.

Por lá, surdos criam grupos por cidade ou com membros de todo Brasil, com em torno de 70 participantes, e discutem questões como melhorias na educação, existência de mais intérpretes de LIBRAS e investimentos em escolas bilíngues. Há também troca de conteúdo acessível para fins de entretenimento, como vídeos e imagens.

Catarina Franzen Lütz, moradora do Norte do Rio Grande do Sul, afirma que grupos no Facebook também são funcionais. Porém, não tanto quanto o aplicativo de mensagens. “O WhatsApp é um meio mais rápido que o Facebook para nossa comunicação e é uma ótima forma de nós nós integrarmos nos assuntos dos surdos de outras cidades”.

Ainda de acordo com Catarina, a maioria dos grupos do WhatsApp em que ela participa são compostos somente por pessoas surdas. Outros incluem amigos e familiares. “Temos grupos específicos para famílias, para rolar aquela interação, mas a maioria é apenas pessoas surdas”.

Na direita, uma mão segura um celular preto em vídeo chamada pelo WhatsApp. Na esquerda, outra mão segura um celular branco, também com vídeo chamada pelo WhatsApp.

“O advento do celular para as famílias com surdos foi algo indescritível. Até então, quando os filhos surdos saiam, não tínhamos como nos comunicar”. Imagem: WhatsApp video calling.

Popularização do celular

A presidente da Associação de Pais e Amigos dos Surdos (APAS), Salete de Souza, entende a necessidade da participação da família em grupos digitais de discussões e menciona a popularização do celular como um divisor de águas para a comunicação entre famílias ouvintes e surdos.

“O advento do celular para as famílias com surdos foi algo indescritível. Até então, quando os filhos surdos saiam, não tínhamos como nos comunicar. Inclusive, várias famílias que conheço tinham dois aparelhos, um geralmente para o pai ou mãe, outro para o surdo”.

Aliás, fica aqui o alerta para que o WhatsApp desenvolva funções ou uma versão que contenha funcionalidades específicas para este público.

Páginas do Facebook para discussões raciais

Assim como para mulheres, na hora de discutir questões raciais o Facebook é a ferramenta mais popular. No entanto, não são somente os grupos que servem como espaço para o encontro de minorias, as páginas reúnem excelentes discussões sobre o tema, tanto através de publicações, quanto na área de comentários.

Aliás, a única ressalva deste tipo de espaço é que, ao contrário dos grupos, nas páginas o conteúdo é postado apenas pelo administrador. Por esse motivo, a interação não é tão uniforme. Ou seja, o conteúdo publicado faz parte do repertório do administrador da página. Assim,o espaço de fala resume-se aos comentários.

Mas para a professora Renata Fernandes, por exemplo, essa dinâmica não é um problema. Dessa forma, ela conta ao Vivo Tech que não participa das discussões nas páginas que segue no Facebook. “Raramente participo, a não ser que seja algo muito polêmico, como episódios de racismo ou publicações com o intuito de valorizar a cultura negra. Se não, apenas visualizo”, afirma.

Prints de grupos no Facebook

Na hora de discutir questões raciais o Facebook é a ferramenta mais popular. Imagem: Povo Negro Cultura e Resistência e Movimento Negro Unificado.

Sobre a importância desses pontos de encontros digitais, ela conta que se sente representada em páginas como“Movimento Negro Unificado (MNU)”, “Povo Negro Cultura e Resistência” e “Poder Negro – Black Power”. “Acho que tem bastante grupo por aí. Não sigo todos, mas vejo que há muitos grupos bons, que reúnem novidades ruins e boas e acho bem bacana, me sinto representada, até porque indiferente é impossível ficar”, finaliza Renata.

Questões LGBTs estão no Facebook e WhatsApp

A comunidade LGBT utiliza grupos no WhatsApp e Facebook para divulgação de eventos, discussões sobre políticas vinculadas a questões de gênero, entretenimento e trocas de experiências.

Um exemplo de comunicação digital é a do coletivo Homens trans em Ação (HTA). Julio Knach, advogado e membro do coletivo declarou no evento “Arena LGBT” que além do perfil no Facebook, eles possuem um grupo no WhatsApp com 150 membros de todo o estado do Rio Grande do Sul.

Entre as principais pautas estão o combate à solidão, a troca de experiência e o acesso às demandas de homens trans que residem em cidades interioranas. Aliás, esses locais a invisibilidade é ainda maior do que em capitais. Assim, eles também falam sobre saúde (indicações médicas) e discutem pautas como dificuldade no mercado de trabalho.

Prints de grupos no Facebook

A comunidade LGBT utiliza grupos no WhatsApp e Facebook para divulgação de eventos, discussões sobre políticas vinculadas a questões de gênero, entretenimento e trocas de experiências. Imagem: Mães pela Diversidade e Homens Trans em Ação.

Já o coletivo nacional “Mães pela Diversidade” utiliza o Facebook como ponte de contato com mães que estão dispostas a aprender sobre e lidar com seus filhos LGBTs. Dessa forma, o grupo do WhatsApp serve apenas como ferramenta de comunicação entre as coordenadoras do coletivo.

Renata dos Anjos, coordenadora do Mães pela Diversidade no RS, comenta que as mães dispostas a compreender seus filhos enviam mensagens. Além disso, as integrantes promovem diálogos em Paradas LGBTs, eventos de cunho acadêmico e articulados por outros coletivos LGBT.

Youtube também é espaço para discussões

Além dos grupos do Facebook e WhatsApp mencionados acima, o Youtube também vale para discussões sobre minorias. Aliás, a interação por lá não é tão visível quanto nas redes sociais, mas acontece com frequência. Por vezes, é até mais didática.

Inclusive, se você deseja aprender sobre as principais pautas dos grupos acima citados, antes de embarcar em um grupo para participar das discussões, segue uma lista de canais incríveis:

Tia Má

Quem comanda o canal “Tia Má” é a jornalista e influenciadora digital Maíra Azevedo. Por lá, ela comenta sobre situações cotidianas e fala o que pensa sem cerimônias. Mas de uma forma carinhosa e compreensível.

Spartakus Santiago

Spartakus Santiago é youtuber e publicitário formado em comunicação pela UFF. Seus vídeos no Youtube visam aumentar o entendimento sobre questões importantes na internet, como racismo e LGBTfobia.

Léo Viturinn

O Léo Vinturinn é surdo, oralizado e professor universitário de Libras. Seus vídeos costumam ser sobre assuntos contemporâneos, sobre sua vida, livros, filmes, séries e, o principal, aulas de LIBRAS – básico. É demais!

Canal das Bee

O “Canal das Bee” é um canal contra o preconceito e a favor da diversão e do riso. É por isso que além de informações, por lá você assiste discussões bem fundamentadas e com bom-humor.

Para Tudo

O canal “Para Tudo” é apresentado pela Lorelay Fox, uma Drag Queen que possui vários talentos. Mas o destaque vai para o de descomplicar qualquer assunto complicado. Com uma metodologia incrível e uma excelente forma de comunicação, Lorelay conquistou mais de 460 mil inscritos.

Alexandrismos

Alexandra Gurgel comanda o ALEXANDRISMOS. O canal foi criado pela jornalista que viveu por anos com complexos em relação ao seu corpo. Hoje, cria vídeos sobre body positive, amor-próprio, autoestima, cabelo, saúde mental e relacionamentos.


Fonte: Brasil.gov, Estadão, Brasil de Fato, Exame e El Pais

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