Geoengenharia: salvação da Terra ou problema a mais?

Cientistas de Harvard se preparam para testar a geoengenharia, que se propõe a baixar a temperatura na Terra.

14/10/2019 às 9:00

Com nosso planeta ameaçado de ficar cerca de 3 graus Celsius mais quente até o final do século, e com muitas pessoas em países importantes negando o aquecimento global, é então necessária uma busca por soluções. Assim, uma equipe da Universidade de Harvard está pronta para testar uma nova arma: a geoengenharia.

Em resumo, a geoengenharia se propõe a reverter os efeitos das mudanças climáticas por meio do bloqueio da luz do sol. Ou, ainda, bloqueando-a antes que ela atinja a superfície da Terra.

Descubra o que é geoengenharia.
Geoengenharia vem sendo testada como forma de reduzir o aquecimento global.

Portanto, a geoengenharia trata de uma ou mais intervenções deliberadas e programadas no sistema climático da Terra, com o objetivo de diminuir ou eliminar o aquecimento gradativo do planeta. Vamos mostrar aqui mais detalhes dessa novidade, que une conhecimento científico e avançadas de tecnologias.

Vulcões: os inspiradores da geoengenharia

Em síntese, um bom modelo do que a geoengenharia quer fazer está nas erupções vulcânicas. Elas lançam partículas sulfurosas na atmosfera. E, dessa maneira, causam, por algum período de tempo, uma diminuição na temperatura, em virtude do bloqueio dos raios solares.

A erupção do vulcão Krakatoa, em 1883, então escureceu a Terra por 18 meses e baixou a temperatura global em 1º Celsius. Da mesma forma, a erupção do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991, diminuiu a temperatura do hemisfério Norte em 0,6º Celsius por um ano.

Descubra o que é geoengenharia.
Erupção do Monte Pinatubo reduziu a temperatura no Hemisfério Norte.

Em cerca de 20 anos, as mudanças climáticas aumentaram a temperatura da atmosfera da Terra em apenas 1º Celsius.

Bombardear a atmosfera com um spray

Desse modo, percebeu-se que a própria natureza por vezes baixa a temperatura do planeta. Portanto, uma das principais ferramentas da geoengenharia será exatamente imitar um vulcão. Aliás, a maior parte do que se sabe sobre geoengenharia vem da observação e estudos dos vulcões. Assim, a ideia é bombardear a atmosfera com um spray de partículas sulfúricas, na esperança de que a temperatura baixe.

Em suma, os cientistas Frank Kreusch, David Keith, John Dykema e Lizzie Burns estão preparando uma ação chamada de “Experimento de Perturbação Controlada da Atmosfera”. Todos fazem parte do Anderson Research Group da Universidade de Harvard, que também faz outros estudos sobre o clima.

Descubra o que é geoengenharia.

A primeira fase consiste em dois voos de balões que devem acontecer antes da metade deste ano no sudoeste dos Estados Unidos. Cada balão vai levar apenas 100 gramas de carbonato de cálcio até uma altitude de 20 quilômetros.

Nessa altitude, os balões vão liberar o pó em pequenos sprays, e então observar como as partículas se dispersam. O custo da experiência é de US$ 3 milhões, algo próximo de R$ 12 milhões.

Sem ataque à camada de ozônio

O carbonato de cálcio, entretanto, é diferente do dióxido sulfúrico emitido pelo Monte Pinatubo. O carbonato não existe hoje na atmosfera, será bem complexo calibrar e controlar a sua ação. Um lado positivo, contudo, é que a erupção do Monte Pinatubo também atacou a camada de ozônio da Terra. No entanto, o carbonato de cálcio não deve fazer isso.

Descubra o que é geoengenharia.
Ideia é jogar carbonato de cálcio na atmosfera para diminuir incidência da luz do Sol na superfície da Terra.

A geoengenharia é boa?

Contudo, mesmo que a experiência seja amplamente positiva, ainda estaremos bem longe de fazer geoengenharia em grande escala. O pó que será então lançado pelos dois balões é irrelevante. Ou seja, é a mesma quantidade de partículas que um avião comercial libera na atmosfera em um minuto de voo.

Para conseguir efeito real, as quantidades lançadas na atmosfera teriam que ser afinal gigantescas. E isso acende então uma luz de alerta sobre a geoengenharia. Para conseguir sucesso, as emissões de carbonato de cálcio precisariam prosseguir indefinidamente.

Uma ação, aliás, que poderia ter efeitos bem ruins sobre a agricultura, diminuindo as safras. Não só as plantações, mas toda a Terra teria menos luz solar. Além disso, a geoengenharia não ataca a questão da acidificação dos oceanos, outra consequência do aquecimento global.

Não pode ser unilateral

Grupos contrários à geoengenharia se organizam, com argumentos fortes até contra experimentos em pequena escala. A cientista mexicana Silvia Ribeiro, de uma organização que aborda impactos ecológicos e socioeconômicos das novas tecnologias sobre os povos mais vulneráveis, é completamente contra. De acordo com ela, pelo menos três países – EUA, Rússia e China – gostariam de controlar unilateralmente o termostato do planeta.

Conforme Silvia, “é um momento totalmente inadequado para que cientistas ingênuos recebam ferramentas e consentimento para fugir de seus compromissos internacionais. Tecnoconsertos unilaterais podem ameaçar ainda mais o clima”, afirma. Ou seja: na visão da cientista, a geoengenharia não pode ser desenvolvida por qualquer grupo ou nação individualmente, já que suas consequências são globais.

A geoengenharia – que também pode seguir caminhos diferentes do proposto por Harvard – pode ter sucesso em diminuir a temperatura global. Entretanto, ela também não resolverá as questões do efeito estufa. Além disso, se ações em larga escala forem executadas e fracassarem, há um risco de imediato e grande aumento na temperatura, levando a caos global.

Descubra o que é geoengenharia.
A humanidade terá que decidir se deseja mesmo as ações da geoengenharia.

Todavia, se as emissões na Terra continuarem no padrão atual, em breve a humanidade terá que escolher um caminho. A não ser que brevemente surja uma outra solução, entre 2030 e 2050 teremos que nos decidir.

Ou a geoengenharia, com tudo que ela tem de bom e ruim. Ou a simples adaptação da natureza e da vida a um aquecimento em larga escala. Dessa maneira, pelo menos para auxiliar a descobrir o caminho mais adequado, a experiência de Harvard pode ser bem útil.

Então, gostou do tema? Então, aproveite para ver como a tecnologia auxilia na redução dos sacos plásticos.

Gostou da notícia?

Veja mais sobre
TecnologiaUtilidades
campo obrigátório

Cadastro efetuado com sucesso!

Em breve você receberá o melhor da tecnologia no seu email