Corrida espacial tem líder inesperado: Luxemburgo

Nação minúscula, Luxemburgo assume papel importante nos próximos passos da corrida espacial.

20/11/2018 às 9:00

Quando se fala em corrida espacial, a primeira coisa que nos vem à cabeça é Marte. Afinal, tanto a NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, quanto a Space X, a empresa de Elon Musk, falam bastante sobre a intenção de colonizar o planeta vermelho. Todavia, Marte pode estar mais distante do que parece e, antes, é provável uma volta do homem à Lua. Aí entra um elemento inesperado na corrida espacial: a minúscula nação europeia de Luxemburgo.

Surpreendente, concorda? Vamos entender isso desde o início. No atual estágio da chamada corrida espacial, ocupar a Lua servirá como modelo do que se pretende fazer em Marte, garantem os cientistas. Contudo, quem vai à Lua talvez não seja a NASA, nem tampouco a Space X. Isso porque as pessoas que ocuparão instalações em nosso satélite natural não serão astronautas. Também não serão turistas espaciais. Muito menos magnatas da tecnologia.

Corrida espacial: entenda porque Luxemburgo está na frente.

Luxemburgo é o concorrente mais forte na corrida espacial do momento.

Em princípio, o mais provável é que passem temporadas na Lua mineiros e empregados de empresas privadas. Em resumo: a ideia é vasculhar a Lua em busca de recursos minerais, gases e primeiramente água. Espantado? Pois ainda há mais: segundo a NASA, as atividades dos mineiros espaciais poderão começar em 2023.

Nesse ponto, chegamos, então, à relação da corrida espacial com Luxemburgo, com o qual as empresas de mineração têm laços. Um dessas empresas é a iSpace, com sede em Tóquio (Japão) e operando também em Luxemburgo.

Takeshi Hakamada, o CEO da iSpace, planeja transformar a Terra e a Lua em um único ambiente. No início, a iSpace pretende explorar comercialmente a Lua com micro robôs, mas seres humanos também irão para lá. O projeto está avançado: uma órbita lunar deve ser feita em 2020 e o primeiro pouso na Lua em 2021.

Corrida espacial: entenda porque Luxemburgo está na frente.

Empresa mineradora iSpace quer trazer recursos da Lua para a Terra.

Em busca de água congelada

O sonho dos exploradores é encontrar uma baía de água congelada na Lua. De acordo com Hakamada, sua empresa quer achar água na Lua e, a partir daí, desenvolver infraestrutura espacial que enriqueça a vida dos terráqueos, aumentando nossa sustentabilidade planetária. Afinal, se realmente existirem no satélite os recursos que Hakamada imagina, seu projeto é ter mil habitantes fixos na Lua no ano 2040, com 10 mil visitantes por ano.

A iSpace não está sozinha nesta área. No total são dez companhias de mineração. E todas têm sede em Luxemburgo, para onde foram atraídas por uma lei para a exploração de recursos espaciais e um fundo para pesquisas, fornecido pelo governo, no valor de US$ 223 milhões, ou seja, mais de R$ 825 milhões. Mas qual é o interesse da nação nesse negócio?

Na verdade, Luxemburgo foi muito estratégica. Acontece que, por tratados internacionais, nenhuma nação pode requisitar a posse da Lua. Ma, sua exploração por empresas é permitida. Então, se as empresas que fizerem mineração no espaço forem sediadas em Luxemburgo, suas receitas serão registradas e tributadas no país. Isso aumentará sua riqueza incrivelmente. Uma vez que as receitas da exploração mineral do espaço podem ser gigantescas.

Corrida espacial por asteroides

Além da Lua, cerca de 16 mil asteroides que orbitam próximos à Terra poderão ser explorados por tais empresas. De acordo com Neil deGrasse Tyson, considerado o principal astrofísico do mundo, a quantidade de minerais nesses corpos celestes é tão grande que sua exploração poderia levar ao surgimento do primeiro trilionário do mundo.

 Corrida espacial: entenda porque Luxemburgo está na frente.

Segundo o astrofísico Neil deGrasse Tyson, a exploração espacial vai criar trilionários.

Até porque parece lógico que, com o esgotamento dos recursos naturais da Terra, novos recursos sejam buscados na corrida espacial deste milênio. E, ainda, quanto mais perto melhor, o que dá muita vantagem à Lua e aos asteroides em relação à Marte.

Luxemburgo x Estados Unidos

A nova lei de Luxemburgo, que é de 2016, acelerou a atual corrida espacial. Agora, o país é o segundo no mundo – assim como os Estados Unidos – a ter uma legislação e uma estrutura legal para a exploração dos recursos fora da Terra. De acordo com o governo luxemburguês, desde a criação da lei, quase 200 empresas entraram em contato, demonstrando seu interesse.

Em síntese, a exploração espacial surgiu durante a Guerra Fria, de 1947 a 1991, quando Estados Unidos e a extinta União Soviética disputaram a primazia no espaço. Os soviéticos lançaram o primeiro satélite e tiveram o primeiro cosmonauta, Yuri Gagarin, que disse, vendo nosso planeta do alto, “A Terra é azul”, em 1961. Mas, os norte-americanos foram os primeiros (e únicos) a colocar um homem na Lua, em 1969.

 Corrida espacial: entenda porque Luxemburgo está na frente.

O soviético Yuri Gagarin foi o primeiro ser humano a ir ao espaço.

Eventualmente, hoje o sistema de Luxemburgo é mais atraente que o norte-americano. Nos Estados Unidos é exigido que companhias tenham mais de 50% de capital local. Luxemburgo não impõe limite nenhum.

Além disso, é um paraíso fiscal, oferecendo incentivos e benefícios únicos. E, ainda, taxas extremamente baixas para a repatriação de capital.

Outra diferença entre Luxemburgo e os EUA: o PIB per capita na nação europeia é de mais de US$ 104 mil (algo como R$ 398 mil); o dos norte-americanos é de US$ 59 mil (R$ 225 mil).

 Corrida espacial: entenda porque Luxemburgo está na frente.

Luxemburgo, país pequeno e muito rico.

O espaço como propriedade coletiva

Até mesmos empresas norte-americanas, como a Deep Space Industries e a Planetary Resources, estão se juntando a Luxemburgo. Aliás, a Planetary Resources tem investimentos do empresário Richard Branson, do grupo Virgin, e de um dos fundadores do Google, Larry Page. É uma das mais antigas da indústria espacial e vendeu uma participação para Luxemburgo, que se tornou um dos principais investidores.

Já hoje, pouco tempo depois da nova lei de exploração espacial, a indústria espacial representa 1,1% do PIB de Luxemburgo. Aliás, este percentual é o maior entre as nações europeias.

Desde 1967, o espaço é entendido como propriedade coletiva, assim como a Antártida. O desenvolvimento militar é bastante limitado no espaço devido ao acordo, assinado por 105 países.

Para implementar a Força Espacial recentemente anunciada pelo presidente norte-americano Donald Trump, Washington teria que sair do tratado, isolando os EUA. E isso aumentaria ainda mais o cacife de Luxemburgo na exploração espacial, tão grande que o país já foi procurado para parceria até pelos Emirados Árabes Unidos.

Ou seja, mesmo os riquíssimos reis do petróleo têm interesse nos recursos gerados pela exploração espacial.

Quer saber mais sobre exploração espacial? Então, leia sobre a tecnologia para tornar Marte habitável.

País com visão de futuro

Todas as questões legais ainda não estão completamente estabelecidas ou esclarecidas. Mas é certo, contudo, que Luxemburgo saiu na frente. É como diz Bill Miller, CEO da Deep Space Industries, que já mudou sua sede para o país europeu: “Luxemburgo provou ser um país com visão de futuro, e seu sucesso permitirá que empresas privadas conduzam missões espaciais gradiosas”.

Luxemburgo tem apenas 2.586 quilômetros quadrados. Isso significa apenas um centésimo da área do Rio Grande do Sul, por exemplo. E pouco mais de 600 mil habitantes, um décimo da população da cidade do Rio de janeiro. Contudo, essa minúscula monarquia constitucional poderá se tornar uma das nações mais importantes da Terra.

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