Algoritmos: você sabia que quem os criou foi uma mulher?

A grande criadora dos algoritmos contemporâneos, Barbara Liskov, não teve vida fácil na ciência por ser mulher.

11/03/2020 às 9:00

Um bom programa computacional tem, em suma, substância e estilo, simultaneamente. Sem detalhes desnecessários, ineficiências, bugs. Dessa maneira, é preciso ser sucinto e capaz de ser entendido por seres humanos. Esses conceitos foram criados por Barbara Liskov, uma das figuras mais importantes na história da computação. Afinal, ela foi a criadora dos algoritmos modernos. A propósito deste mês da mulher, vamos conhecê-la um pouco mais?

Algoritmos muito ruins

Barbara surgiu no mundo da informática em 1968, quando concluiu seu doutorado em Ciência da Computação na Universidade de Stanford, Estados Unidos. Na época, já que o poder da computação havia ultrapassado a capacidade dos programadores, os algoritmos eram uma confusão em programas que podiam ser perigosos.

Aliás, os algoritmos são o conjunto de instruções que o programa dá à máquina que o executa. Em outras palavras, uma “receita de bolo”, todavia de alta complexidade. E, como escrevemos ali em cima, no início os algoritmos pareciam ser uma bagunça. Só para exemplificar, um programa para controlar a radiação emitida por um equipamento tinha, ao mesmo tempo, um erro grosseiro nos algoritmos. O problema acabou gerando doses fatais de radiação em pacientes com câncer.

Baseados em matemática

Foi então que Barbara promoveu uma revolução na programação. Ela passou a examinar os programas não como questões técnicas, mas como problemas matemáticos. A cientista de computação mergulhou na questão e ainda muito jovem criou a primeira linguagem de programação que não usava o sistema GoTo (Ir para), causa dos principais erros existentes.

Imagem de  Barbara Liskov, a criadora dos algoritmos.
Barbara Liskov, a criadora dos algoritmos baseados em dados abstratos.

Dessa forma, sua linguagem, a CLU, usava dados abstratos organizados em módulos. Aliás, CLU é um diminutivo para cluster, ou módulo. Todas as linguagens contemporâneas de programação, como Java, C++ e C#, são assim descendentes diretas da CLU e das criações de Barbara. Os algoritmos desenvolvidos por ela geraram softwares que podiam ser controlados e guiados por princípios lógicos e estéticos.

Prêmio Turing para Barbara

Em 2008, 40 anos após sua criação, ela enfim recebeu o Prêmio Turing, o Nobel da Computação, por suas contribuições teóricas para a linguagem da computação e design de sistemas. No seu discurso, ela foi modesta: “Minha vantagem foi ter começado tão cedo na história da programação, quando o grande problema ainda estava lá. Tudo que tive que fazer foi me dedicar a ele”, disse na época.

Seu brilho é afinal impressionante. Há algumas décadas, eventualmente ela fez estudos sobre Inteligência Artificial e, nesse campo, escreveu um programa para finais de jogos de xadrez.

Imagem de um cartão perfurado, usado antes de Barbara criar os algorítimos.
Quando Barbara começou, os algoritmos eram gravados em cartões perfurados.

Portanto, ela leu livros sobre o tema e escreveu o programa. Simples assim, mas com um detalhe: Barbara nunca jogou e não sabe jogar xadrez. Segundo ela, esse programa afinal a ensinou que os algoritmos devem expressar ações da maneira que os humanos fariam. E assim são todos eles atualmente.

Um processo de design

Mas ela não pensa em uso absoluto da Inteligência Artificial. “Se estou trabalhando em um problema e preciso aprender como um algoritmo funciona, não posso aplicar machine learning. Isso é tarefa para humanos”, resume.

Mas não havia ainda muita IA nos tempos em que Barbara aprimorava os algoritmos e a linguagem de programação. Seu interesse era, pois, a organização do software: “É um processo de design, no qual você imagina como melhorar uma aplicação. Você precisa organizar o código quebrando-o em partes menores”. E ainda mais: “Dados abstratos ajudam nesse processo, é similar a resolver um teorema. Você decompõe o teorema e aí resolve parte a parte”, explicou.

A arte que não se ensina

Segundo Barbara Liskov, não existe uma máquina ou uma IA que escrevam programas e algoritmos. Assim, é necessária imaginação humana para decompor a questão em subproblemas e criar soluções para todos. É trabalho e repetição até, por fim, chegar a uma verdadeira linguagem de programação. E isso, garante ela, é então “a arte do design”.

Mas conhecer os processos de programação não significa ser bom em design, explica. Como professora universitária, ela garante que nunca foi capaz de ensinar a arte do design a seus alunos – alguns conseguiam, a maioria não.

Barbara Liskov, criadora dos algoritmos modernos, aconselha mulheres a desenvolver autoconfiança e a não desistirem
Algoritmos como usamos hoje foram criados por uma cientista norte-americana, Barbara Liskov.

Os primórdios da internet

Atualmente a criadora dos algoritmos contemporâneos está, decerto, preocupada com os rumos da internet, as fake news, a invasão de privacidade e a falta de responsabilização.

De acordo com ela, as portas foram, em suma, deixadas abertas para isso na década de 1980, quando a internet se resumia a cerca de 15 universidades e dois laboratórios governamentais. Ela participou então desse processo: “Éramos todos companheiros e nossa atitude era de que os sites não podiam ser responsabilizados por conteúdos. E isso continua igual”, enfatiza.

Dificuldades por ser mulher

Por ser mulher, Barbara não teve facilidades no mundo da computação. “Mas pelo menos minha mãe não foi contra”, diz. Ela fez todos os cursos de matemática e ciências que as meninas e adolescentes não são estimuladas a fazer. Na Universidade de Berkeley, era enfim uma de duas mulheres em classes de 100 homens. “Nenhum deles jamais me convidou para fazer trabalhos com eles”, lembra.

Posteriormente ela foi se graduar em Stanford e após a formatura não recebeu nenhuma proposta de emprego, ao contrário de seus colegas do sexo masculino. Naquela época, consultores colocavam os recém-formados em empregos em universidades por todos os Estados Unidos. Nenhum se interessou por Barbara.

10 mulheres entre mil professores

Na verdade, nenhuma universidade estava contratando mulheres em áreas de ciências. Enfim, ela conseguiu uma posição no MIT (Massachussets Institute of Technology) em 1971, três anos depois de formada. Mesmo assim, Barbara recorda, havia então apenas 10 mulheres entre os mil professores do MIT.

As coisas mudaram com o tempo, mas nem tanto. Segundo ela, entre 1990 e 2000, o departamento de ciência da computação do MIT contratou apenas uma mulher. Entretanto, nos quatro anos em que ela dirigiu o departamento, de 2001 a 2004, sete mulheres foram admitidas pela “mãe dos algoritmos modernos”.

Em 2018, aos 79 anos, Barbara ganhou o Prêmio de Pioneira da Computação.

Mulheres desconsideradas

Para Barbara, a sociedade costuma desconsiderar as contribuições das mulheres para as ciências. Quando ela ganhou o Prêmio Turing pelo desenvolvimento dos algoritmos, vários colegas cientistas comentaram: “Por que ela ganhou o prêmio? Ela não fez nada que já não soubéssemos”. Para Barbara, os homens ainda têm dificuldades em lidar com o fato de que mulheres são capazes, criativas e competentes.

Importância da autoconfiança

Outro comentário que surgiu, com frequência, foi do tipo “Ah, nem foi ela que fez isso, foi o fulano…” E como “fulano” foram então citados dois ou três cientistas já falecidos. “Eu não fui ler esses comentários”, diz Barbara, “mas meu marido leu.” E conclui: “Estou acostumada com comportamentos hostis, eu os enfrento até em palestras que dou. Preciso estar preparada, tanto por ser mulher quanto porque essas pessoas querem aparecer”.

O conselho da criadora dos algoritmos para mulheres que querem vencer no mundo da ciência é o básico. Primeiramente tenham autoconfiança, não se encolham, falem abertamente. Mas essa autoconfiança, ela admite, pode demorar tempo para ser alcançada.

Aliás, você que é mulher sabe que existe um aplicativo anticoncepcional? E, além disso, que existem apps de transporte para mulheres? Vale a pena conferir.

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